domingo, 5 de junho de 2011

Mortuária

Foi uma ambulância em frente ao necrotério da cidade que começou isso. A marca do veículo era "Matador", mas ninguém na cidade percebia a ironia macabra. Era uma questão de idioma, aquele povo falava outros mil dialetos, mas não sabiam das línguas latinas. Eu, passageiro, comentei em inglês com o motorista do taxi, ele também não entendeu. Tentei tirar uma foto, não deu.

Ninguém se entende.

Só eu ri da imagem do morto chegando naquele "Matador" malemalmente disfarçado de ambulância salva-vidas.

Visito uma cidade, toda enfeitada com especiarias e flores e luzes coloridas, mas tudo tão bagunçado, tão fora de lugar, que a mente da gente pede socorro, uma ordenzinha que seja em nome do bom Deus. A multidão que vai dum lado pro outro simplesmente vai, abrindo brechas por sobre os outros, desviando da outra multidão que simplesmente vem. Buzinando, buzinando, vão passando... o chão é um asfalto sujo de uma lama preta tal mangue, lixo jogado por toda parte.

Das coisas bonitas que vi eu não vou falar sobre, porque antes vi as crianças brincando sobre a mesma terra em que defecavam, porque vi guetos, e nos guetos revolta e violência, e vi gente dormindo ao largo das autopistas e da linha férrea. E o leproso, cego de um olho, que me pediu hoje esmola com a mão sem dedos.

Por todos os lados, pontuando as misérias humanas, existem templos de vários tamanhos, as estátuas dos deuses e as fotos de renonados gurus. Meu Pai do céu, essa religiosidade toda, está fazendo bem pra quem mesmo? Seria assim que uma divindade arruma, outra estraga? Eu não compreendo.

Os locais seguem suas acostumadas vidas, os turistas vem sedentos de grandes mistérios espirituais, e a cidade inteira emana um cheiro que ao meu nariz é Morte. Como pode haver salvação quando quem te carrega é o Matador?

Tomei um banho mas parece que o cheiro grudou na minha pele e não vai sair mais.

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